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"Pensar Dentária": momento de reflexão
Da autoria do Dr. Rowney Furfuro, o artigo reflecte as preocupações e intenções do movimento Pensar Dentária que vai estar em Lisboa, Faro, Coimbra e Porto, no mês de Setembro. Este texto é um convite à auscultação da classe como um todo.
24.07.2012
Momento de reflexão
Há poucas semanas a nossa selecção corria atrás de uma bola, que na verdade representava mais que um objecto, uma metáfora de cariz dúbio e capcioso. Jogava-se o troféu de campeão europeu de futebol, mas procurava-se a identidade de um povo e a cura para o seu orgulho ferido. A impiedosa crise social que se abateu sobre nós, à guisa de uma crise económica de proporções épicas, fez com que todos nós, subjugados por uma comissão tríplice internacional, olhássemos para o troféu em causa, como se de uma redenção nacional se tratasse. Felizmente, perdemos o campeonato que nos poderia ser opiáceo, tanto na euforia como na ressaca.
Durante algumas semanas esquecemos-nos de uma realidade que vinha lateralizada nas páginas frontais dos periódicos, esses, pintados com as cores da nossa bandeira, a sublinhar uma frase de efeito sob o rosto invariavelmente massacrado de um ídolo.
Mas não é, de todo mau, que esse período tenha sido há tão pouco tempo. Pode ser que ainda persista na memória de todos os reptos eloquentes e persistentes, que evocavam as entranhas da nossa história, de um nobre povo valente e imortal. O bordão era: “todos por 11 e 11 por todos.”
História
Se retrocedermos um pouco no tempo, perceberemos entre os pouco mais de cem Médicos Dentistas que trabalhavam em Portugal no fim da década de 80 do século passado e os pouco mais de 8000 actuais, só se passaram 30 anos. Mas nesse tempo, o Portugal pujante, à custa de uma economia fermentada de apoios e subvenções de uma Europa abastada, fixava os seus jovens dentro de portas. Acenava com um futuro brilhante para o qual deveriam ficar e estudar, deixando o outrora tão ambicionado salto, num estado de latência, encubado como um vírus resguardado no sistema imunitário desta sociedade. Os números actuais não deixam dúvida do sucesso conseguido na fixação de uma nova geração de futuros doutores, uns por extenso, outros em contracção sucedida de um ponto e outros, ainda, apadrinhados pelo busão, licenciados por créditos de experiência. Mas todos a sobrelotar as suas ordens profissionais, a criar um mercado de trabalho extremamente competitivo e autófago, a dizimar os valores como ética e deontologia em nome de um objectivo que, travestido de sucesso, nada mais é do que uma via crucis rumo ao limbo.
Actualidade
Mas uma realidade tão crua e vil, já não se compadece com os comportamentos sectários e egocêntricos de outrora. Já não importa quem foram os culpados, pois já estão condenados todos. Culpados e inocentes. Não há tempo para olhar para trás e apontar o dedo, pois a areia escoa pela estreita ampulheta que estrangula o futuro, deixando apenas passar o próprio tempo. Dizia, numa brincadeira, o radialista Vasco Palmeirim, agora não há clubes, somos todos selecção. Pois é mesmo disso que quero falar-vos nesse artigo.
Agora não pode mais haver situação e oposição. Não há mais tempo nem espaço para as críticas estéreis. A situação da saúde oral dos portugueses está a ser tratada como o Estado tratou as nossas economias e o nosso futuro. De forma negligente. Disseram-nos para ficar e agora abrem-nos a porta para sair. Agora a saída profissional é uma Europa empobrecida e carente, onde poucos são os países capazes de manter-se à tona. Então vamos lutar por um lugar ao sol atrás de sol-posto?
A realidade hoje da saúde oral dos Portugueses está escrita por uma ordem de médicos dentistas com mais de 8000 membros, onde 60 por cento ou mais tem menos de 35 anos. Somos acompanhados por um colégio de especialistas em Estomatologia com uma média de idade certamente superior a 50 anos, cujo “turn-over” tem sido sistematicamente negativo, representando uma força de trabalho indispensável, mas insuficiente para a demanda no serviço nacional de saúde, onde os primeiros são os eternos pedintes de chapéu na mão, sem porta de entrada, sem saída para o futuro. Enquanto a Estomatologia decresce em número de ano para ano, a medicina dentária insufla cerca de 500 novos profissionais por ano, oriundos de sete faculdades. Exactamente. São sete faculdades num país com menos de dez milhões de habitantes, onde mais de metade da população vive ou sobrevive sem qualquer possibilidade de acesso à saúde oral.
Que soluções?
Apontar erros e problemas, sei-o eu e saberão todos os colegas. O problema é que não há ideias nem sugestões a acompanhar as críticas. Apontam-se os erros, mas não as soluções. No momento de criticar as lideranças, sejam elas situação ou oposição, há sempre quem (alguém), mas quem proponha alternativas e soluções, ou não existe ou acobarda-se e esconde-se dentro de casa. Talvez a iludir-se ou a ser iludido pela torpe ideia de que tem a solução, mas que a usará em benefício próprio.
Neste momento só há um caminho. Tortuoso, penoso, desagradável mais para uns que para outros, mas o único. O fim das divisões. Todos nós que trabalhamos em prol da saúde oral somos importantes e precisos. Todas as ideias e críticas, com ou sem propostas, mas dadas com sentido de construir o futuro são, de todo, indispensáveis.
Certamente, uma Assembleia Geral da Ordem ou do Colégio de Estomatologia, serão os espaços para as decisões ou propostas finais concebidas e organizadas. Mas para chegar a esse desiderato, precisamos ouvir todos e cada um. Organizar e discutir as distintas visões do mesmo problema. Reconhecer e assumir os inúmeros problemas e suas faces e vertentes. Recolher o máximo de sugestões em todos os quadrantes. Muitas vezes, os "brain stormings" são os espaços onde as grandes empresas resolvem enormes problemas, por uma sugestão de alguém que, não necessariamente, era especialista do assunto. A inocência de uma opinião sem jaça, sem paradigmas pode trazer uma solução brilhante e viável, até então nunca ponderada.
Sim, colegas. Este texto é um convite. Mais do que isso, é a extensão de um convite que fiz a alguns colegas, estrategicamente posicionados de norte a sul do país. Proponho que rapidamente nos encontremos para "Pensar dentária". Realizar uma auscultação à classe como um todo. De todos os quadrantes. É imperativo que se ouça quem tem feito e quem nunca lá esteve a fazer. Quem queira começar a lutar e quem queira continuar a lutar. Agora, no meio da crise instalada, onde ninguém está isento ou imune, teremos que cerrar fileiras. Médicos Dentistas e Estomatologistas, recém-licenciados e veteranos, doutorados e mestrados. “11 por todos e todos por 11.” ( ! )
Pensar Dentária
Os colegas que serão anfitriões já aceitaram o convite. Durante o mês de Setembro, iremos repetir o encontro semanalmente. Começando por Lisboa (dia 8), iremos a Faro (dia 15), Coimbra (dia 22) e terminaremos o ciclo de debates no Porto (dia 29).
Em cada um dos debates, haverá uma pequena conferência introdutória de um colega convidado, que tenha experiências que possam acicatar a participação de todos, seja por solidariedade ou por ficar a conhecer uma realidade da qual só se ouviu contar na terceira pessoa. Depois, seguir-se-á um espaço de debate aberto a todos os colegas que queiram participar. Haverá tempo disponível para que no fim deste ciclo, se possa produzir um dossier, que será disponibilizado ao bastonário que for eleito no pleito eleitoral deste ano, seja ele quem for. Será disponibilizado o mesmo dossier à presidente do Colégio de Estomatologia.
Mas não tenhamos ilusões. As soluções já não passarão por nenhum destes dois elementos. A lei de bases que altera substancialmente as competências das Ordens profissionais retirar-lhes-á qualquer capacidade que não seja a de mobilizar os seus pares. Por isso, importa agora guardar as armas de guerras internas e desavenças pessoais. O inimigo é muito maior e está fora de portas. Se não nos unirmos, seremos esmagados. O desemprego profissional será ainda pior e as condições de trabalho deteriorar-se-ão até ao ponto de muitos colegas serem forçados a guardar as suas cartas de curso numa gaveta, abrir as páginas dos classificados e disputar o mercado de trabalho em serviço de mesa na restauração, aos balcões dos centros comerciais e onde mais houver postos de trabalho em disputa.
O convite está feito. É hora de participar.
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